Depósito de Neuras


Da série: o que andei lendo.

Furacão Sobre Cuba

Pois bem, meus queridos quatro leitores. Disse no dia 14 de junho deste ano que estava pensando em voltar a escrever aqui. Certamente não fiz falta, porque é muito mais interessante sentar-se na beira do mar com um livro nas mãos, bebericando alguma coisa e curtindo o sol do que ficar dentro de casa, com o notebook no colo, procurando o que talvez o Luís Fernando tenha escrito em um momento de nostalgia. Eu concordo pra caralho com isso, tanto que fui fazer isso ao invés de ficar blogando por aqui. E mesmo quando não estava na beira do mar com um livro, estava no interior, na padaria, no sofá da minha casa ou sentado no piso frio da varanda, com um copo em uma mão e um livro na outra. Então, não julgo vocês, porque não se pode julgar alguém que faz aquilo que lhe alimenta a alma. E não julgo também porque fiz igual e la vida sigue adelante

Durante esse meu longo (e sensacional) período de ausência, aconteceram tantas coisas na minha vida que talvez eu volte a escrever aqui só para escarrar todas as merdas e compartilhar os bons momentos que os meses de afastamento me proporcionaram. Posso dizer que gastei meu tempo com bobagens, mas também fiz com que ele se rendesse às minhas vontades. E aproveitei para colocar o intelecto em ordem, abrindo um armário do meu apartamento e retirando, periodicamente, um dos livros que estavam enfileirados, aguardando o momento para ser devorado e criticado. Porque não há nada mais chato do que ler um livro e não ter com quem discutir sobre o tema. Se existe gente que se reúne, semanalmente, para degustar uma garrafa de vinho e discutir sobre taninos, porque não podemos nos reunir para conversar sobre os livros que lemos? 

E antes que alguém me xingue, não sou um homem desavisado: eu sei que existem clubes de leituras espalhados aos montes por aqui e pelo resto do mundo. Mas estou dizendo de uma conversa mais informal, com menos intelectualismos, de preferência em algum boteco com boa bebida, boa comida e com pessoas que adorem preservar a individualidade dos outros (trocando em miúdos, sem chatos ao redor). Como a vida das pessoas anda corrida demais para que possam agendar um boteco simplesmente pelo prazer de divagar, e eu vergonhosamente me incluo nesse nada seleto grupo de cidadãos que, sem trabalho, não se alimentam, não se vestem e não compram livros, fiquei com vontade de comentar um livro fantástico que comprei em um dos poucos sebos existentes na cidade onde moro atualmente. 

"Furacão Sobre Cuba" é um relato escrito por Jean-Paul Sartre no ano de 1.960, ou seja, um ano depois do triunfo da Revolução Cubana. Enviado pela revista France Soir, hospedou-se no emblemático Hotel Nacional de Cuba, no bairro do Vedado, onde deu início aos seus estudos sobre a ilha caribenha. O livro aborda, na forma de escrita filosófica que permeia o limite de toda a obra sartreana, desde a especulação imobiliária na capital, Havana, passando pelo histórico da ação imperialista nos campos açucareiros, até chegar na formação da guerrilha armada e da tomada do poder pelo exército capitaneado pelo advogado Fidel Alejandro Castro Ruz, natural de Birán, escoltado por seus dois mitológicos escudeiros, Camilo Cienfuegos e o argentino Ernesto "Che" Guevara de La Serna. 

A edição que tive acesso, cuja foto ilustra esse texto aqui, foi publicada pela carioquíssima Editora do Autor. Essa editora, verbeteada por Ruy Castro em seu livro "Ela é Carioca - Uma Enciclopédia de Ipanema", por sua história já mereceria uma biografia própria, e na minha modesta opinião é uma das precursoras do idealismo literário que atualmente foi massacrado pelos grandes conglomerados: pequenos negócios, onde os seus colaboradores eram amigos, dispostos a não mais que reverter seu talento em provento próprio, oferecendo cultura verdadeira, legítima, baseado no que se acredita e não no que pede o mercado. Obviamente não deu certo, pois o mundo é mundo desde que se chama mundo. Porém inegavelmente essa iniciativa deixou para o país uma grande reunião de talentos da escrita e das artes gráficas, como Glauco Rodrigues, Bea Feitler (a brasileira que dirigiu a Harper's Bazaar), Jaguar, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga...

Filosofia sem grandes "filosofices" pode ser a síntese dessa obra. Uma viagem pela história da Revolução Cubana sem elocubrações ideológicas, e sim com pensamentos filosóficos que se encaixam perfeitamente, como o carrinho do Autorama na sua própria pista. Obrigatório para quem gosta de história, de filosofia, de política e, sobretudo, de literatura boa e sem frescura. 



Escrito por Luís Fernando às 17h51
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