Depósito de Neuras


Um brasileiro em Cuba - segunda parte.

Ao chegarmos no Aeroporto Internacional José Martí, em Havana, ficamos um pouco apreensivos, tendo em vista a demora para que a nossa bagagem aparecesse na esteira rolante. Fora isso, não tivemos nenhum problema. A imigração não nos causou nenhum desconforto, fora a questão que o guarda do aeroporto cantou minha mulher, a qual elegantemente se esquivou da investida.

O funcionário da alfândega perguntou se pretendíamos ir aos Estados Unidos durante a validade dos passaportes apresentados. Diante de uma resposta afirmativa, o mesmo nos disse, então não recomendo o carimbo de Cuba, boa estada. Assim, naturalmente, como quem conta para a mãe que ficou de exame final quando o pai já havia feito o depósito antecipado daquela semana de férias no hotel-fazenda. Já tomamos contato com o ancestral problema do bloqueio bem na "porta de entrada" da nação.

Ao adentrarmos o saguão do aeroporto, nos encontramos com o motorista que iria nos conduzir para o hotel. Os traslados entre os hotéis e o aeroporto foram incluídos pela empresa que contratamos, e isso se mostrou inicialmente muito interessante (com o passar dos dias, vimos como o táxi é barato e eficiente, então não precisam se preocupar se a agência de turismo não disponibilizar o traslado). Mas não pense que tu vai ser conduzido para o hotel em um Cadillac ou em um Chevrolet Bel-Air dos anos cinquenta: os táxis são, na sua grande maioria, veículos herdados do período soviético na ilha, de marcas como Skoda e Lada, e todos os motoristas credenciados são funcionários públicos. Sim, você não leu errado, os servidores públicos em Cuba estão lotados nos mais variados setores, não apenas detrás de um balcão, pois o sistema socialista é auto-sustentável, e o capital de giro tem que, forçosamente, passar pelas mãos estatais.

Mas essa é uma discussão para outra hora. Fato é que nossas malas couberam no porta-malas de uma perua Skoda, e fomos levados ao hotel por um senhor muito simpático, que fez questão de nos mostrar os outdoors contendo mensagens pró-Revolução e pró-Socialismo (no lo van a nos poder de rodillas, siempre adelante con Cuba, dentre outras frases estimulantes); a Plaza de La Revolucion, com seus edifícios imponentes e a emblemática fachada do Ministério do Interior com a escultura de Ernesto "Che"Guevara; a Avenida Paseo, repleta de mansões transformadas em habitações coletivas e em serviços estatais de caráter social, como escolas, centros cirúrgicos e centros de convivência, até chegarmos à esquina com o Malecón. Ali ficava o nosso hotel: Paseo con Malecón.

Nos hospedamos no Hotel Meliá Cohiba, um elefante-branco encravado num espaço privilegiado. Afinal de contas, o Malecón é um dos cartões-postais da capital, um deleite para os fotógrafos, para os artistas, para os escritores, para os músicos, para os turistas. É uma avenida que parece não ter fim, com um quebra-mar fantástico, que permite a invasão das ondas e que refresca os habaneros que se sentam em suas muradas de concreto para pescar, para ouvir música e para ver um dos mais belos espetáculos daquele país: o pôr-do-sol. Qualquer desenho, qualquer descrição, qualquer poesia sobre a sensação de escutar o barulho do mar e de sentir o toque da espuma que o vento traz não reflete a sensação de estar diante do Atlântico imenso.

Ficamos em um quarto que carinhosamente chamávamos de "quina", mas não há nada de pejorativo nisso. A arquitetura arrojada do hotel dá impressão externa de algo um pouco sanfonado, uma dobradura gigante e extensa que alcança os céus de Havana. Mas quando se está dentro do seu quarto, a sensação é dúbia: acolhimento pelo cuidado que a rede Meliá lhe proporciona, liberdade por conta das enormes janelas anti-ruído. Ficamos em um quarto no nono andar do hotel, com vista para todo o bairro de Vedado, mais um trecho de Miramar e do Malecón. Olhando para baixo, víamos as piscinas, olhando para a direita, víamos os fundos do maravilhoso Hotel Habana Riviera, um marco arquitetônico da cidade e uma prova inefável de que o capitalismo já imperou em Cuba.

Ao sermos recebidos no Hotel Meliá Cohiba, por sermos um casal em luna de miel, fomos alojados em uma habitação superior daquela que havíamos contratado no pacote turístico. Um regalo da rede Meliá a dois turistas brasileiros. Chegando no quarto, José, nosso camareiro gente finíssima, avisou que havíamos sido presenteados com uma garrafa de rum Havana Club. O quarto era amplo, com uma cama gigantesca, uma sala de estar com um sofá e duas poltronas, e um televisor de tela plana com programação a cabo (isso não mudou muito, pois os canais interessantes, exceto a Fox Sports, não estavam disponíveis). Havia um pequeno escritório com escrivaninha, papel e caneta, um cofre de segurança para os pertences dos hóspedes e um banheiro amplo, com uma banheira de mármore incrível, da qual você consegue extrair uma vista maravilhosa da cidade, principalmente a noite, pois a capital cubana é ainda mais linda ao cair da tarde.

Próximo episódio: nossa primeira noite em Havana.



Escrito por Luís Fernando às 09h45
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