San Quentin.

O distribuidor de filmes piratas deve ser com um fornecedor de armas clandestino. Deve se portar com discrição, falar pouco e só trazer artigo fino. Você deve confiar no cara, saber que aquele produto não vai falhar na hora agá, assim mesmo, por extenso. Imagina se tu compra um treisoitão e, em cima da pinta, o bicho refuga, pipoca e falha? Mal comparando, até porque eu sou um pacifista inveterado, mas o blogue é meu e eu escrevo o que eu quiser e faço analogia com o que bem entender, é uma merda quando tu vai até a feirinha, enfrenta aquela fila para arrumar uma vaguinha no estacionamento de dois reais, pega uma puta duma tromba d'água, adquire o que chamamos carinhosamente de PACOTÃO DE ENTRETENIMENTO e, já no aconchego do seu lar, a mercadoria é de péssima qualidade. Azeda o créme de la créme, não há humor que resista, ainda mais se for aquela comediazinha romântica que sua companheira amorosa está doida para assistir e que tu não a levou ao cinema porque o ingresso está custando os olhos da cara e você não é palhaço para gastar quase vinte pilas no combo médio do Cinemark. Pois bem. Eu, que não sou bobo, nem nada, até porque sou flamenguista de coração, para desgosto do meu pai, e isso explicita meu elevado Q.I, detenho laços tão fortes de amizade com os meus fornecedores de películas em formato DVD que não devem se assustar os desavisados que se confrontarem com suas presenças no altar do meu casamento. Obviamente, trata-se de um exagero concreto e abusivo, mas não encontrei nada mais impactante para mesurar a relação de confiança que deve haver entre o consumidor e o negociante. É nessa maré que cheguei de mansinho naquela Cinecittá ambulante e, mediante transmissão de pensamento, lá estavam separados os lançamentos para olhares atentos dos fregueses preferenciais. E quem integra esse seleto grupo sabe como nos sentimos. Nos sentimos como habitués dos áureos tempos do Gallery com tanta consideração, com a diferença de que tu não precisa usar um smoking alugado para ser VIP. Terminei comprando a 12ª temporada dos Simpsons, já que estou colecionando para mostrar aos meus bisnetos como se fazem desenhos animados de verdade e, de quebra, fui no novo do Quentin Tarantino. "Bastardos Inglórios". Eu sou fã do Quentin, ex-balconista de locadora, como eu fui. Mas bom escritor e multimilionário, como não sou. E, desde o começo, percebe-se que não se trata de um experimentalismo do diretor, como naquela pífia homenagem aos velhos filmes de terror. É um verdadeiro Tarantino, um espécime legítimo, como aqueles aquelas obras do Hélio Oiticica que, infelizmente, tornaram-se pó de urna. Humor refinado, roteiro elaborado, elenco afinado, boa trilha sonora e um desfecho extremamente empolgante. Todo mundo queria ver o filme por conta do Tarantino e do Brad Pitt. Este, aliás, num momento tão brilhante quanto aquele seu cigano de "Snatch", obra-prima do ex-Madonna. Mas algumas outras coisas me surpreenderam além. Eli Roth. A participação espirituosa de Mike Myers. A beleza de Diane Krüger como uma agente dupla. Mas ninguém consegue superar Christoph Waltz em matéria de atuação: numa boa, seu Coronel Hans Landa é a personificação do anti-semita, do nazista arraigado, a fusão do cativante com o monstruoso. Assim eram os nazistas, não? Não foi Hitler descrito desta forma em todas as suas biografias? Vale cada centavo, vale cada segundo de tempo gasto diante do televisor (no meu caso, com um pote de Io-Io Crem gelado no colo) ou na sala de cinema (sendo roubado pela lanchonete do Cinemark). A cena dos bastardos travestidos de investidores italianos na premiére nazista já vale o ingresso, o estacionamento, o disco, a fila, etc. Quentin Tarantino é o messias do cinema. Não confundir o título dessa postagem com a canção do Johnny Cash, que também era boa pra caralho, mas isso é uma outra conversa.
Escrito por Luís Fernando às 20h48
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