Eu sou o que eu escrevo?
É engraçado como as coisas vão mudando nas nossas vidas. Quando comecei a escrever este blogue, a primeira coisa que eu fiz após a publicação da primeira postagem foi começar a visitar outros blogues. Então, a cada blogue visitado e a cada texto alheio comentado, restava em mim aquele expectativa de retribuição, de boa vizinhança, de calor humano, como se irrompesse de mim a necessidade de ser notado, lido, comentado tanto nos cafés parisienses quanto na Boca do Lixo paulistana. E eu visitava, e havia retribuição, e aquilo me obrigava a escrever mais e a visitar mais e a contar os comentários. Aí eu comecei a escrever uns continhos no computador aqui de casa e publiquei o conto numa revista literária que nem existe mais, da qual eu nem me lembro o nome, infelizmente. Mas eu queria ser lido, comentado, visitado. E pensava que escrever os contos traria mais pessoas para o blogue e que traria um foco maior para as coisas cotidianas que aqui sempre foram escritas. E eu escrevia contos à rodo, simplesmente pela evidência. Devo até ter feito um ar blasé de quando em vez, o que, definitivamente, não é muito a minha praia. Enfim, a gente sai do nosso corpo em algum momento da vida, e nem é preciso tomar o Daime para liberar nossos exús. E eu sempre esperava que, o que eu iria escrever, talvez gerasse uma conversa, um interesse ou coisa que o valha. Mas, quanto mais eu publicava os contos, mais ruins eles ficavam, então eu resolvi parar de escrever por um tempo. E, quando eu dei essa pausa, comecei a receber alguns e-mails de pessoas que realmente gostavam do que liam, que perguntavam quando sairia um outro escrito, se haviam processos criativos, modos de ação premeditados. Outros que escreviam somente para dizer que se identificaram com uma ou outra personagem, ou que a cidade descrita era igualzinha àquela onde costumava passar suas férias de infância, ou até que o homem sisudo lembrava um pouco o seu próprio pai. E eu fui percebendo, quando parei de escrever naquela primeira vez (há dois anos não publico nada, nem uma linha literária sequer em lugar algum do mundo), que estava me dedicando a um ofício que nem era tanto a minha praia ou que não era tão talentoso como um dia me julguei, mas que as pessoas que se interessam por algo que você faz só precisam se interessar por aquilo ali. Pelo produto final. O que eu faço nesse meio-tempo não importa muito, ou melhor, não importa nada. O meu blogue, que eu escrevia pensando no impacto de cada linha, tornou-se cada vez mais interessante para mim e cada vez menos interessante para os outros, até porque muita gente que me acompanhou no começo hoje já nem deve passar por perto daqui. E fui perdendo aquele sentimento de obrigação, aquele dever de visitar, porque eu não estava mais a fim de receber aquele que não chegasse aqui por vontade própria, ainda que digitando um endereço errado. E aquela esperança de me tornar o blogueiro do século pela qual, acredito, todo mundo que começa a escrever na internet é tomado de assalto desapareceu como que por magia. Eu continuo escrevendo sazonalmente por aqui, continuo procurando o CD ideal para sempre tentar um novo conto ou, quem sabe, um romancezinho chinfrim, sem o menor interesse em abrir minha alma como a um livro de biblioteca, que passa por mãos desconhecidas, que alcança lugares pelos quais eu nem gostaria de passar. Também, depois daquela interrupção, escrevi mais algumas coisas que continuaram sendo publicadas em lugares bacanas, mas que, ao contrário da produção em massa, de certa forma me trouxeram a pontinha de orgulho e me fizeram soltar aquele clichê, porra, isso está bom, nem acredito que fui eu quem fez. E vou além: tenho amigos queridos, pessoas que realmente considero e que só conheci porque o blogue perdura, levando-me por diversos caminhos. Essas ficarão, sem sombra de dúvidas. Ah, é bom aproveitar o ensejo, como dizem os ofícios da prefeitura, que não preciso conhecer para divulgar, que aqui não é confessionário, que eu só acesso o que me diz alguma coisa e que meu compromisso é com o que me faz bem. Quer saber? Não pretendo mudar, nem o meu jeito de ser, nem a idéia de quem está começando seu primeiro blogue. Mas esse respeito sempre vai predominar. Portanto, caso você acredite que seu blogue vai mudar o mundo, go straight ahead, vou adorar saber que há esperança. Mas, se um dia você se identificar com o que acabou de ler, puxe a cadeira e sente-se ao meu lado. Sempre haverá um copo a mais na mesa da vida para quem quiser beber um gole dessa história.
Escrito por Luís Fernando às 21h25
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