Carta aberta à Bensimon.
São Bernardo do Campo, em 24 de setembro de 2.009. Oi, Carol, Eu não pude ir ao lançamento do teu livro, como tu pode perceber. Fui convocado para ser jurado durante o mês de setembro, e não estou falando de um programa de calouros ou do concurso do alazão mais bonito do leilão de quadrúpedes. Estou falando daquele júri pesado, casca-grossa, foda mesmo, fórum e o diabo a quatro, crimes contra a vida. Enfim, então meu nome foi sorteado e, como estou em pleno inferno astral até o próximo dia vinteseis, tinham seis testemunhas ao todo, então acabei saindo do fórum por volta de nove horas da noite. Ao sair do fórum, pude perceber que seria melhor ter construido uma arca ao invés de comprar um Pólo há dois anos atrás: a chuva foi torrencial, as ruas serviam de piscina para caixas de papelão e pedaços de plástico e meu carro estava tão distante que desejei ter um caiaque ou um daqueles guarda-chuvas impermeáveis de desenho animado, onde as personagens apenas o abrem, o viram do avesso e seguem, remando, contra a correnteza. De qualquer forma, eu não chegaria ao shopping. Mas em momento algum deixei de pensar em você e em como a nossa amizade terminou por tornar-se essa coisa (no bom sentido) tão bacana. Quando nos conhecemos, durante aquela Bienal de Artes de São Paulo, em 2.006, e tu ficou com um CD do Sufjan Stevens e meu guarda-chuva recém-comprado no camelô, não pensaria que chegaríamos até aqui, com esse contato de alma e essa ansiedade de um reencontro que, certamente, vai demorar um bocado. Quem sabe quando eu me casar (dezembro do ano que vem, talvez) meu aviãozinho sobrevoe Paris e eu chegue até o studio onde você mora com seu namorado e você finalmente conheça a mulher da minha vida e possamos todos almoçar num bistrô pequeno e andar numa daquelas montanhas-russas de parques itinerantes que os filmes europeus sempre mostram. Minha visão francesa é muito cinematográfica e, pelo que leio no teu blogue, talvez seja mesmo preciso dar uma chegadinha lá and cut that crap. Eu estou feliz. Muito feliz. A minha avó sempre dizia que o mundo é colorido e que você escolhe se prefere viver num azul-piscina ou num cinza-chumbo. Muitas coisas se passaram desde 2.006, muitas pessoas se foram e poucas chegaram prá valer. Mas as que chegaram só vão sair, como diria Vinicius de Moraes, na grande partida que há no fim e isso vai me confortando um pouco. Tenho amigos suficientes para contar nos dedos das mãos e ainda sobram dedos. Você acabou se tornando um dedo, ainda que distante, ainda que mais por e-mail que por telefone, ainda que morando em outro país e se relacionando com outras pessoas, outras culturas, outras formas de expressão. Você se torna, aos poucos, uma escritora sensacional, vai desenvolvendo seu estilo e vai conseguindo seu reconhecimento sem atropelar suas convicções. Eu não sei se consegui chegar a isso, mas posso dizer que essa tua história é meu espelho, e olha que barato, posso dizer que estou no caminho certo, ainda que longe da literatura, ainda que num caminho inverso ao teu. Você lançou o "Pó de Parede". Eu sabia que aquilo era só o começo. E que, no futuro, meu exemplar autografado vai passar pelo meu filho e pelo meu neto. Vão cuidar dele como a gente tem que cuidar do que a gente gosta. Eu não pude estar lá. Mas estou sempre por aqui. Sucesso sempre, guria. Um beijo do seu sempre amigo, louco para jogar sinuca embaixo d'água, Luís Fernando.
Escrito por Luís Fernando às 21h15
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