Digão.
Em dezembro de 2.006, eu estava trabalhando num emprego péssimo, ganhando mal pra caralho e sem possibilidade nenhuma de crescimento, porém sem nenhuma outra oportunidade à vista, já que havia mandado uns quarenta e-mails com um currículo anexo em cada um deles e não havia tido um retorno sequer. E estávamos perto do Natal, eu estava com o meu décimo-terceiro salário todo comprometido e tinha, me lembro bem, quarenta reais na carteira. Eu nunca gostei de pegar dinheiro com o meu pai, ele não tinha culpa daquela maré, na verdade nem eu tinha essa culpa. Mas era fato, eu tinha quarenta reais na carteira, era dia 23 e eu havia cancelado uma viagem para o Litoral por conta desse probleminha orçamentário para passar o Réveillon em algum lugar onde eu pudesse gastar o mínimo possível. Eu me lembro que estava em casa, deitado no sofá e pensando como seria o início de janeiro do outro ano quando o meu celular tocou. Era o Rodrigo, Digão para os íntimos. Eu conheci o Digão quando fui para uma festa no interior paulista e fiquei hospedado na república duns caras que conheço e que estavam trabalhando em cerâmicas daquela região. O Digão dividia um dos quartos com um dos meus amigos e, de bate-pronto, ficamos amigos. Ficávamos horas conversando na calçada, eu ouvia um CD da Marina Lima no discman e sempre deixava um ouvido sem o fone, porque eu não queria perder um minuto de conversa com aquele cara tranqüilo. Eu me sentava no meio-fio e arranhava um violão velho que estava sempre encostado num beliche e ele ficava lá, ouvindo, cantando junto, enfim. Empatia de primeira, sem esforço. Então, o Digão me ligou e disse que estava na cidade, que tinha vindo passar as festas com a sua família e que estava a fim de assistir a algum filme e depois jantar alguma coisa, talvez um sanduíche no Paulão, que é um dos meus lugares favoritos e que, um dia, eu quero levar a Carol para conhecer, já que tivemos discussões acirradas sobre o xis gaúcho e o xis paulista. Pois bem. Eu disse para o Digão que estava meio sem grana, mas ele disse que estava convidando e que eu não devia recusar, que seria uma puta duma ofensa. Então ele passou aqui em casa e a gente caiu num shopping, na antevéspera de Natal, porque queríamos assistir "O Labirinto do Fauno" e só estava passando naquela porra de lugar. Ficamos andando e jogando conversa fora, até que paramos em frente à vitrine da Livraria Nobel. E ficamos conversando sobre aqueles livros que estavam expostos e sobre alguns CDs que estavam empilhados, no formato dum pinheiro nada simétrico (até me chamou atenção um disco do Paulinho Nogueira, instrumental, sobre as primeiras canções do Chico Buarque de Holanda). E eu comentei com o Digão que, quando tivesse grana, a primeira coisa que faria seria voltar lá e comprar o "Blues", do Robert Crumb, porque eu adoro blues e adoro os cartuns do Crumb. E o Digão ficou lá, ouvindo, dizendo até que estava a fim de comprar uns quadrinhos do Frank Miller, mas que, sei lá, podia ficar para depois. E voltamos a andar pelo shopping, em direção a uma cafeteria, e eu continuei falando sobre o quanto gostava do Muddy Waters e que achava "Kozmic Blues" a melhor música da Janis Joplin quando percebi que estava falando sozinho. Então, voltei para a frente da Livraria Nobel e o Digão estava com um pacote na mão. O cara entrou lá e me comprou o livro do Crumb. Então, olhou para mim e disse algo como pô, você me conhece, sabe que eu nunca te deixaria na mão por causa de grana. Enfim, eu resolvi escrever isso aqui porque hoje, passados três anos, as coisas mudaram muito na minha vida. Faço o que gosto, da forma que acho correta, a remuneração (hoje) é bem adequada e vamoquevamo. E resolvi escrever porque, quando terminei o livro do Robert Crumb, comecei a procurar na internet por uma porrada de artistas que faziam a cabeça do cartunista e que eu jamais tinha ouvido falar qualquer coisa, como o Robert Johnson, o Furry Lewis e o Charley Patton. E achei o Patton foda, tão visceral na tradução literal do Daniel Galera e me vi doido pela força daquelas palavras, pela habilidade do cara em transformar qualquer acontecimento, por mais banal que fosse, em uma rajada potente e arrepiante de poesia. E porque, por esses dias, vasculhando, encontrei a coleção completa das gravações do Charley Patton no Amazon e resolvi me autopresentear. E isso não teria sido possível se não fosse a sensibilidade de um daqueles caras que nunca vão permitir que o tempo escasso e os quilômetros rodoviários transformem a amizade em uma distância impossível de ser vencida. Ah, sim. Antes que tu pergunte, o quadrinho do Frank Miller chegou na mão do Digão. Através do amigo que adora o Crumb, adora o blues e nunca vai se esquecer daquele 23 de dezembro.
Escrito por Luís Fernando às 22h37
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