Sin perder la ternura.

O comércio alternativo de filmes pode transformar o impossível em algo paupável. Durante a semana, assisti ao tão comentado e laureado (mais comentado que laureado) filme do Steven Soderbergh sobre a trajetória do médico Ernesto Guevara desde o início da Revolução Cubana à sua trágica morte num povoado boliviano. À primeira vista, pode parecer apenas uma forma de se retratar um mito histórico, mas a visão do diretor vai um pouco além disso. Soderbergh tenta humanizar a figura mística do argentino que, inicialmente com certa ressalva, comandou a luta armada no arquipélago caribenho que marcou tanto a derrocada do governo de Fulgêncio Batista quanto a ascensão do regime ditatorial que viria a ser imposto por Fidel Castro ao povo cubano. Dividido em duas partes, "O Argentino" e "Guerrilha", curiosamente não traz à baila a chegada dos guerrilheiros à Havana. Dimensiona, porém, a comoção popular quando da tomada de Las Villas e Santa Clara pelo pelotão de Guevara, enquanto se noticia a vitória dos comandados por Castro e Camilo Cienfuegos em, respectivamente, Santiago de Cuba e Yaguajay, que antecedeu à caminhada até a capital nacional, saltando para a despedida de Guevara do governo instalado e sua partida para treinar novos miliciantes nas matas bolivianas. Benicio del Toro encarna um Che fabuloso. Traz à tona sua latinidade num espanhol perfeito e coloca Rodrigo Santoro, que interpreta Raúl Castro, atual comandante cubano, no chinelo. Porém, o Fidel Castro de Damián Bichir é o grande trunfo de Soderbergh. Quem vê as imagens históricas da Revolução, quem ouve o áudio dos longos discursos castristas, sabe que ali estava a mais perfeita encarnação do ditador. Fidel é refinado, inteligente, um estrategista de fala mansa, um líder nato. Che e Cienfuegos, percebe-se, só comandavam com seu aval, dando a correta idéia de que havia um respeito natural à hierarquia proposta naquela célula combatente. O problema de Che, bem retratado nas mais de quatro horas de projeção, talvez tenha sido a ausência de um comandante como Castro na Bolívia. Enquanto os cubanos eram organizados e extremamente disciplinados, os bolivianos não traziam consigo a instrução necessária para um levante de tamanha magnitude como uma revolução armada. Não que Che fosse um péssimo condutor. Che apenas não era um estrategista como Castro. Bolívia não era Sierra Maestra, não houve o apoio do Partido Comunista Boliviano e Che se viu cercado de homens despreparados em um terreno acidentado e desconhecido. Tentando angariar apoio dos poucos campesinos da região escolhida para treinamento, enfrentou os boatos impostos pela mídia governista e não logrou êxito, inclusive por não falar a lingua indígena do local. Tamanha dificuldade culminou no fracasso das operações e na captura dos seus guerrilheiros no conflito de La Higuera, culminando num desfecho que todos conhecemos. A fidelidade às informações traduziu-se na fidelidade das cenas filmadas por Soderbergh. Como todo relato sobre um mito, deve-se escolher um foco para análise e transposição à tela. O que Soderbergh escolheu foi adequado, na minha modesta e amadora opinião: focar-se na pessoa, sem esquecer-se da história. O resultado não é um filme panfletário, mas passível de discussões acaloradas em mesas de botecos num domingo de tarde amena. Vale aguardar a estréia, caso você não tenha um distribuidor de sucessos que transforma sangue em água e tem consideração suficiente por ti a ponto de lhe conseguir coisas que até Deus duvida.
Escrito por Luís Fernando às 22h38
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