Imagens criando imagens.
Ontem à noite, comecei a ler um livro incrivemente belo, que já acumulava certa poeira em minha estante. Justo eu, que tenho por característica não fazer duas coisas ao mesmo tempo, me vejo compartilhando as poucas horas livres entre Cormac Mc Carthy e uma porrada de autores brasileiros. Jovens, eu diria, e nem tanto por idade. Não sei a idade desses escritores e nem me interessa. Certa vez, em uma leitura de textos, dentre os quais um conto meu, um dos autores disse que a nova literatura brasileira era injustiçada pra caralho. E, aproveitando aquela intimidade temporária que adquirimos por estarmos fazendo parte de um círculo literário, regado à uísque e Coca-Cola Zero, perguntou se eu concordava. Obviamente eu disse que não concordava, que aquele termo nova literatura brasileira me causava estranheza e que só existia, na minha concepção, uma literatura única que, no máximo, poderia ser dividida entre boa e ruim. Os textos daquele cara eram muito ruins, quase tão ruins quanto os meus, eu me sentia totalmente à vontade para conversar sobre os escritores que sentem-se como deuses porque, um dia, por ter um conto publicado numa revista literária, quase me deixei levar por essa sensação. Mas estávamos numa leitura, eu tive de me manifestar e, obviamente de novo, jamais fui chamado para outra leitura dessas.
O que aquele rapaz chamava de nova literatura brasileira eu prefiro chamar de literatura. E, nesse livro que comecei a ler, justamente por tratar-se de uma coletânea de contos, mais me interessou a proposta que os autores propriamente ditos, mesmo porque eu só conhecia dois deles, e ainda mais pelos blogues que por qualquer outra coisa. Nesse "Contos Sobre Tela", organizado por Marcelo Moutinho, dezesseis autores escolhem dezesseis obras de artistas plásticos brasileiros e, exercitando a sensibilidade, compõem pequenas histórias baseadas no que seus olhos captam. Ou seja, os autores, tendo como mote uma imagem parada e repleta de cores, criam pequenas histórias. Puta proposta interessante e que, pelas leituras iniciais, tem tudo para ser um daqueles livros que jamais trocarei por duas pulp-fictions no sebo mais próximo. No prefácio, o José Castello diz que os contos são, acima de tudo, um exercício dos jovens autores. Jovens autores. Não foi justamente o que eu disse? Foda-se a idade, eu quero é boa literatura.
Estou ansioso pelo conto do João Paulo Cuenca, baseado numa tela do Leonilson. E pelo conto do Nelson de Oliveira, baseado numa tela do Cândido Portinari. O primeiro, para saber o que esse carioca de Copacabana conseguiu extrair dos pincéis dançantes do falecido cearense. Já o segundo, mais para ver a obra de Portinari que, apesar de não entender muito de arte, sempre me encheu os olhos pelas cores e formas. Li o da Adriana Lunardi, óleo sobre tela de Pedro Weingärtner, pequenas relações humanas num quarto, grande exercício de criatividade. Acredito que, se foi um livro bom de se manusear, deve ser um livro ainda melhor para ser sentido. Cormac Mc Carthy e seu "Onde Os Velhos Não Tem Vez" terão de me dividir com outro monte de gente bacana, que pinta e escreve, e nem vai poder reclamar disso.
Escrito por Luís Fernando às 12h23
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