Depósito de Neuras


Santo Allen.

Como não consegui encontrar nenhum coreano que me vendesse um Nintendo Wii a preço módico, voltei para contar que fui ao cinema com a Roberta.

Fomos no domingo à tarde. Cinzento, modorrento, chuvoso e eu não sabia que a Paulista estava tão caótica com as reformas em seu calçamento. Parecia que toda a cidade estava saindo de suas transversais, cruzando, buzinando, derrapando. A Roberta me perguntava, será que o filme é bom? E eu dizia, deve ser intenso, li não-sei-onde que o diretor inspirou-se livremente em "Crime e Castigo", do Dostoiévski, russo de nome enrolado que virou canção na voz do Wandi.

A Roberta não gosta muito de filmes densos, prefere obras mais delicadas, sutis ou, no jargão popular, um mela-cueca só. Adora aqueles filmes que te fazem chorar no final, talvez no meio, quem sabe desde o início. Assistimos "P.S. Eu Te Amo" no DVD, eu deitado sobre sua barriga e, de repente, minha caixa craniana começa a saltitar espontâneamente. Ergui meus olhos e lá estava ela, chorando copiosamente, de soluçar mesmo. Me levantei, olhei para o aparelho: dez minutos de história haviam se passado. É algo que nunca conseguirei entender, e olha que sou um poço de sensibilidade.

Enfim. Ela me dizia que a vida já era pesada demais, densa demais, para que fôssemos assistir a um filme denso ou pesado demais num domingo chuvoso. Mas o que posso fazer se sou fã do cara desde a primeira experiência. Eu tentava retrucar, usando toda a minha eloqüência, buscando convencê-la de que até o pior trabalho do Woody Allen é melhor do que muita coisa em cartaz por aí. Mas de nada adiantou e eu comprei os ingressos sob apupos e protestos da minha namorada. Ainda mais que o cappuccino de Nutella, que servem no anexo do Espaço Unibanco de Cinema estava em falta no cardápio, aí já viu.

A Gabriela Duarte sentou-se ao nosso lado, mas demorei duas horas para perceber que era a própria. Defeito ou qualidade, I don't give a fuck. Fato é que "O Sonho de Cassandra" é mais uma incursão bem sucedida daquele judeuzinho genial e míope pelo drama, refletindo claramente suas influências em um trabalho que sequer se aproxima do plágio. Dois irmãos, unidos e extremamente diferentes, magistralmente interpretados por Ewan Mc Gregor e Colin Farrell. O primeiro, racional, odeia o trabalho no pequeno restaurante do pai e sonha com uma sólida carreira de investidor no ramo hoteleiro, preferencialmente bem longe dali. O segundo, passional, jogador inveterado, sortudo ocasional, odeia seu trabalho numa oficina de carros antigos, sonha administrar sua própria loja de materiais esportivos. Muitos sonhos, pouco dinheiro, já que os irmãos nutrem uma declarada paixão pelo mar e investem todas as suas parcas economias, parte delas obtidas no hipódromo ou nas cartas, em um pequeno veleiro. Um luxo para quem, desde que o mundo é mundo, vê sua família ser sustentada por Howard, tio materno, proprietário de clínicas ao redor do mundo, que manda dinheiro à rodo e de bom grado.

Uma dívida contraída numa roda de pôquer, que chega a noventa mil libras, unida com a ameaça constante de agiotas, somada à chegada repentina do tio milionário para visitar sua família é o estopim para que uma das marcas da filmografia de Woody Allen se escancare: a análise crítica da célula familiar. Os sobrinhos não hesitam em pedir dinheiro suficiente para o pagamento da dívida e o início dos investimentos em hotéis e artigos para esporte, porém o bom grado do milionário tem um preço: eliminar um ex-funcionário que ameaça entregar as suas falcatruas para autoridades competentes o suficiente para levá-lo a passar boas férias numa prisão.

Sem o dinheiro do tio, a família passaria privações. Os sonhos dos sobrinhos cairiam por terra. A família se separaria de forma abrupta. Mas matar alguém? Até quando um homem suporta viver com essa carga? Woody Allen é um cineasta tão genial que consegue incutir certas discussões em nossas mentes sem que o filme sequer tenha atingido a metade de sua duração. A discussão da vez foi: você usaria sua família para justificar sua própria cobiça? Eu tenho uma opinião sobre isso, mas te juro que você chega a reconsiderar quando adentra à teia de aranha composta pelo diretor dos óculos inconfundíveis.

Eu recomendo, e muito. A Roberta disse não ter gostado, porém entrou de cabeça nas discussões durante a volta para casa. Nas pequenas rodas, dizem que esses milagres somente são atribuídos a poucos santos. Santo Allen é um deles. Amém, nós todos.



Escrito por Luís Fernando às 19h39
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