Petróleo + fé = cobiça.
Por este pôster não se tem a dimensão exata do novo filme de Paul Thomas Anderson, muito menos consegue sentir algum impacto distinto do, oh, que bela foto do Daniel Day-Lewis, ou, oh, gosto de letras vermelhas num fundo preto, me lembro até dum certo time carioca que me causa emoções de forma constante.
Acontece que "Sangue Negro" é uma experiência tão grandiosa que nem valeria à pena expôr mais do que isso num mero cartaz. Quem conhece a obra do diretor, sabe que ela possui algumas características peculiares. O fato de Anderson ser adepto do cinema autoral traz à baila o cuidado necessário para que seus trabalhos não caiam no lugar-comum, então tu já pode esperar um roteiro que cuida dos diálogos como uma velha senhora de seu cão sabujo. A história de Daniel Plainview, sua ascensão com a exploração do petróleo em terras norte-americanas e sua guerra fria com o jovem Eli Sunday, membro de uma família de ignorantes, porém um sábio que faz uso da fé para conquistar seus objetivos, é lapidada com diálogos cortantes, fortes, dilacerantes, respaldada por uma fotografia impecável e uma edição de imagens primorosa.
Porém, como em toda obra de Paul Thomas Anderson, tão importante quanto o roteiro é a trilha sonora. Em "Magnólia", as canções compostas e executadas por Aimee Mann foram o ponto de partida para que as cenas fossem visualizadas, o que significa que tratou-se de um filme onde a música deu forma à imagem. Em "Sangue Negro", a guitarra dissonante de Jonny Greenwood, integrante da cultuada banda Radiohead, é o grande trunfo de Anderson para ditar a intensidade e a dramaticidade de seus longos planos seqüência. Não tão longos como os do israelense Amos Gitai, mestre da técnica da tomada única, porém tão (ou mais) cativantes quanto. É um daqueles filmes em que, se fecharmos os olhos, bem somos capazes de visualizar tudo o que não esta à nossa vista. Poucos cineastas têm essa sensibilidade. Paul Thomas Anderson é um deles.
Daniel Day-Lewis, então, tem uma atuação digna da estatueta mais almejada do cinema mundial. De fato, a obteve com louvor, apesar de não ter podido avaliar a performance dos demais indicados. Seu Daniel Plainview transpira ganância e ironia, sin perder la ternura. Apesar de saber quais são suas intenções desde o começo da história, não se tem certeza plena do que aquele homem carismático e de retórica aguçada fará para alcançar seu objetivo. Questiona-se, a todo tempo, se Daniel Plainview é uma máquina de cobiça ou apenas mais uma pessoa tentando sobreviver à sua maneira numa savana obscura. Porém, a alma do filme é o jovem Paul Dano, conhecido por sua participação quase muda em "Pequena Miss Sunshine", sensação do ano passado e que ainda causa discussões animadas nas rodas de botequim que freqüento. A interpretação do jovem pregador Eli Sunday passou despercebida na premiação do Oscar, mas aposto que não foi ignorada pelas pessoas que minimamente sentem-se atraídos pela sétima arte. Quando contracena com Day-Lewis, em especial quando Daniel Plainview é impelido a procurar o templo religioso para buscar uma falsa redenção, na ânsia de adquirir o último lote de terra que separa seu petróleo da região portuária, nota-se uma maturidade pouco vista em jovens atores nos últimos tempos.
O filme, em si, é uma obra-prima, uma confluência de fatores que culmina em algo que te arrebata desde a primeira cena. Paul Thomas Anderson se revela, a cada trabalho, um talento absoluto que caminha rumo ao panteão dos grandes a passos largos. Como Woody Allen, mestre absoluto do cinema autoral, consegue extrair de seus atores o melhor, sem dar a menor pinta de que, para isso, tenha sido necessário o uso de fórceps e métodos milenares de tortura. Escolhe a dedo as canções, participa diretamente da edição, consegue fazer com que Adam Sandler dance num supermercado sem parecer ridículo ou forçado. Nos dizeres do grande Atayde Patreze, Paul Thomas Anderson é simplesmente um luxo.
Escrito por Luís Fernando às 14h08
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