Depósito de Neuras


Uma trilha sonora, em uma noite qualquer.

Há tempos eu não escutava a trilha sonora de "Alta Fidelidade". Ontem à tarde, deitado na cama, zapeando a tevê, dei de cara com o começo desse filme no Cinemax, sei lá se Prime ou comum. O fato é que, nos meus cálculos e devo admitir que sou péssimo com números, acabei assistindo-o pela décima sexta vez.

Sou fã do John Cusack, não imagino outro cara capaz de incorporar perfeitamente o DJ-oitentista-frustrado-vendedor-de-discos-de-vinil-que-tem-receio-de-se-comprometer. O Rob Gordon é a personificação de uma porrada de caras que conheço, que são meus amigos e que eu amo, mas que tremem na base quando a conversa é pular para dentro de uma relação complexa, repleta de contas a pagar, rotina e frango à passarinho no domingo. Confesso que já tive minha fase, mas passei por ela como um caminhão de madeira que abalroa um indígena na Transamazônica. Enfim. É um dos poucos filmes que não me deixam opção quando com ele me deparo: é assistir ou assistir.

Há alguns anos atrás, comprei a soundtrack, como diria uma amiga afetada. Encontrei-a na prateleira de um sebo, perto do prédio de recursos humanos da prefeitura. Lembro-me que, na permuta, o cara me garfou três discos: uma coletânea do Hoodoo Gurus que eu tinha em duplicidade, e costumo guardar coisas em duplicidade para futuros investimentos; um do Men At Work, que o próprio rapaz do sebo definiu como a melhor moeda de troca; e um single do Belle and Sebastian. Nunca fiz um negócio tão bom em todos os meus anos de escarafunchador de sebos. Claro que ainda não cheguei ao nível da Camilla Lopes, que vive me espezinhando nas nossas conversas porquê a minha terra não tem um sebo tão bom quanto o carioca Berinjela, mas a experiência vem com a prática.

Na noite passada, dirigindo um carro pelas ruas daqui, resolvi colocar o CD depois de alguns anos. Nunca ando sem um CD por perto. Às vezes, estou caminhando pela rua e, se alguém pedir para me revistar, é grande a chance de encontrar um disco em um dos meus bolsos. Meu amigo tem um bar e, numa dessas andanças, parei para tomar um expresso com ele no balcão. Tinha no bolso um CD com algumas músicas escolhidas pelo Woody Allen como trilha de seus filmes, ele pediu para ouvir e, uma hora depois, efetivei a doação para os anais do botequim. Acontece que eu não me lembrava de como a trilha do filme do Stephen Frears, baseado num livro do Nick Hornby (que nunca li, confesso) era tão boa, nem como ela seria tão perfeita para que eu explorasse os detalhes de ruas como se estivesse sendo levado por um furacão sem saber onde aquilo iria dar e sem me importar nem um pouco com isso. The Kinks, Bob Dylan, Elvis Costello, Stevie Wonder, The Velvet Underground, The Beta Band... e Stereolab. Cara, como eu gosto de Stereolab. Quando eu me casar, certamente tocará Stereolab, nem que seja naquela hora em que os convidados estiverem se acotovelando no salão pelas melhores mesas. Quando eu me casar, Stereolab vai tocar "Lo Boob Oscilator", que é a canção da trilha sonora desse filme.

Porque é como dizem, não importa onde você esteja, o que importa é a música que está tocando.



Escrito por Luís Fernando às 20h46
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
Outros sites
  UOL - O melhor conteúdo
  Mário Bortolotto
  Camilla Lopes
  Carol Bensimon
  Clareador Cerebral
  Bruna Beber
  Garfada
  Revista Malagueta
  Insanus
  Cecília Giannetti
  Joca Reiners Terron
  Carola Medina
  Bruno Medina
  Angélica Freitas
  Revista Trip
  Blocos On Line
  Meus contos em Blocos
  A Garganta da Serpente
  Meus contos na Garganta
  Usina das Palavras
  Meus contos na Usina
  Pisar El Césped
  Bestiário
  Paralelos
  Psicodelia
  Rabisco
  Cove
  Rafa Prete
  Mal de Montano
  Renato Parada
  Estante Virtual
  Carmine
  Amanda
  Vanessa Riboldi
  Júlio César Corrêa
  Pips e Tisf
  Clarah Averbuck
  Tati Schiavini
  La Guitarra
  Menina Lunática
  As Filhas do Dono
  Déa Machado
  Be Blog Jazz
  Rasga Mortalha
  Cristiane Lisboa
  Bruno Galera
  Ana Paula Maia
  Monomulti
  Breviário de Decomposição
  Breviário das Horas
  A Nova Corja
  Jú Gross
  Jéssica Panazzollo
  Taxitramas
  Paulo Scott
  Rui Minharro
  Gazeta Mundo Cão
  Desconcertos
  Editora Baleia
  Cosac e Naify
Votação
  Dê uma nota para meu blog