Para se chegar em Havana, gasta-se normalmente cerca de seis ou sete horas de vôo, aí incluídas as idas-e-vindas de fuso horário, bem como a sua pausa no Aeroporto Internacional da Cidade do Panamá.
Minha mulher e eu viajamos pela Copa Airlines, e confesso que tive medo. Mas como eu teria medo de voar até se fosse um pássaro e tivesse asas que me foram dadas justamente para cruzar os céus, não sou parâmetro para nada. E justiça seja feita: não tivemos problema algum durante o embarque, o desembarque e o trajeto. Aviões muito seguros, lanchinho horrível (como em todas as companhias aéreas) e uma única revista a bordo. No braço das poltronas tinham botões que, depois, fui descobrir ser o dial e o volume das rádios internas da companhia aérea.
Consegui ouvir um disco inteiro do Yo-Yo Ma, mais alguns clássicos do jazz moderno instrumental, e dormi o resto do tempo graças a uma cavalar dose de Dramin, cortesia da minha mulher, que me conhece como poucos. Não enfrentamos turbulências, o que foi um negócio da China, considerando minha propensão ao terror quando não sou eu a pessoa que está dirigindo.
O Panamá, pausa obrigatória para quem voa Copa até Havana, pode ser definido como um Paraguai de luxo. Por se tratar de um país onde os impostos são livres para compras (o famoso tax-free), a conexão pode transformar uma pausa maçante num programa divertido. Minha mulher e eu comemos uma pizza em pedaço logo na saída do portão de desembarque e, como faríamos nova conexão ao voltarmos para São Paulo, optamos por passear pelo aeroporto, definir nossas prioridades de compra e deixar para adquirir no retorno.
Até porque há limites estabelecidos pelo governo cubano para que você possa transportar as mercadorias mais famosas do país, como rum, charuto, café e chocolate. Fora o limite de peso da bagagem, que é estabelecido pela companhia aérea (isso merece um capítulo a parte). Sendo assim, é muito recomendável que tu não entupa sua mala de muamba no Panamá e perca a oportunidade de trazer o que realmente importa na bagagem: os poucos produtos que Cuba pode te oferecer.
O Aeroporto Internacional José Marti, de Havana, é bem estruturado, ao contrário do que muitas pessoas pensam. Você não desce no meio da selva ou em Sierra Maestra. A pista é conservada, os funcionários são bem-treinados, você é direcionado adequadamente e a imigração do país é atenciosa sem ser grosseira, sem te intimidar em momento algum. Apesar da minha mulher ter sido cantada pelo policial (e, com elegância, ter desviado do mesmo), é bom frisar que não enfrentamos nenhum problema desde o embarque em São Paulo até a retirada de nossas bagagens na esteira do aeroporto.
Voltando a escrever aqui, creio que terminam as dúvidas de meus quatro leitores sobre a idoneidade de minha palavra.
Eu disse que, ao voltar de Cuba, me sentaria diante do computador e contaria absolutamente tudo sobre minha experiência no único país notadamente socialista das Américas (Venezuela não conta, para mim é um comunismo maquiado e movido a petrodólares).
Ocorre que, passados mais de cinco meses do meu retorno, quase seis meses, ainda não me recuperei totalmente da viagem. Foram dez dias que, para mim, significaram uma vida toda. Sinceramente, ao pisar no avião que me traria de volta ao Brasil, junto de minha mulher, carregava na bagagem mais que somente garrafas de rum Havana Club ou charutos Romeo Y Julieta. Carregava um sentimento estranho, uma vontade absurda de voltar, um desejo maciço de, um dia, quem sabe morar lá por um tempo.
Estou terminando de colocar as idéias em ordem. Em breve escreverei tudo.
Após três longos e tenebrosos anos sem férias, vou-me embora para Cuba em dezembro. Ficarei nove dias sentindo a história tomar meu corpo.
Ficarei em bons hotéis, beberei além da conta, dançarei salsa com minha mulher e pretendo comprar um quadro bem colorido para colocar na sacada do meu apartamento (ou em qualquer outro canto que me seja permitido).
Como não encontrei nenhum blogue com indicações de restaurantes, bares e clubes noturnos em Havana e Varadero, talvez esse seja meu projeto de retorno. Se não um blogue, porque eu não tenho mais paciência para escrever continua e rotineiramente, possivelmente uma série de impressões sobre minha viagem aos meus dois ou três leitores assíduos, ou seja, aqueles que ainda se dão ao trabalho de deixar comentários aqui, pedindo que eu apareça ou escreva. Certamente, meus queridos, beberei um rum em homenagem a vocês, que nunca me abandonam. E vocês sabem bem quem são.
Vou escrever tudo, tudo, tudo sobre Cuba aqui nesse espaço empoeirado. Quem viver, verá.
Coloco a música que gosto de ouvir porque o filme é meu [ ri ]. Existe um certo tipo de jazz que é ótima música para comédia, porque é para cima e viva. Realmente não vou além da era do swing porque é importante que a batida seja simples, e a música, melódica. Seria difícil fazer uma trilha com o Charlie Parker e o Dizzy Gillespie - numa comédia. Dá para usar a música deles num filme sério. E de vez em quando dá para encaixar um Thelonious Monk.
Além disso, não consigo usar com facilidade a música dos meus ídolos. Nunca uso Jerry Roll Morton ou George Lewis. Só usei duas músicas de Sidney Bechet. Uma vez, em Poucas e boas, e só usei porque a letra [ de "Viper Mad" ] era ótima para a festa a que o Sean [ Penn ] vai no filme; usei também um disco muito, muito atípico do Sidney Bechet, em que ele toca "Tropical Mood Meringue", que ele não executou tão bem, e sem muito sucesso, e não é considerada parte de seu trabalho sério. Nunca consegui usar Louis Armstrong numa trilha sonora. Consegui colocá-lo num filme, como fiz em Memórias, mas, assim como Lewis e Bechet, não consigo usar Armstrong inocuamente como música de fundo; me incomodaria muito, a música deles é importante demais para mim.
Agora, eu realmente adoro muita gente que uso como música de fundo. Fiz muito sucesso com Ben Webster, Coleman Hawkins, Django Reinhardt, Erroll Garner, porque a música deles é altamente melódica e tem swing. Usei bastante Benny Goodman, que não é exatamente um ídolo para mim, embora eu adore como música de fundo.
[ Eric Lax, Conversas com Woody Allen, p. 400-401, Cosac & Naify ].
Perdi o emprego. Depois, ganhei outro emprego. Aumento salarial. Comprei um apartamento. Depois gesso, piso, aquecedor, armários e granitos, necessariamente nessa ordem. Muitos livros lidos, nenhum conto escrito. Redescobertas e reencontros. Pai e mãe ainda mais sensacionais. Um filho que foi feito para mim, ainda que não por mim. Tricampeonato carioca. Hexacampeonato brasileiro. Amor, amor, amor, amor. Choro também, mas muito amor. Raiva também, mas muito mais amor. Perdas. Ganhos. Mais ganhos que perdas, com absoluta certeza. Desenhos animados no You Tube. Pouco MSN, pouca paciência para internet, paciência nula para conversar num laptop, muita saudade de boteco com os grandes, poucos e ótimos amigos de toda uma vida. Muitas descobertas sonoras. A delicadeza de Tiê. Charley Patton e seu blues do Delta. Os anos de Etta James na Chess Records. Os anos de Billie Holiday na Columbia. O antológico disco do Jorge Ben com o Gilberto Gil. A polenta ao funghi do Nico. O bloody-mary do Paulo Tiefenthaler em seu programa genial do Canal Brasil. Os vinte anos dos Simpsons. Muita coisa boa no DVD. "Gran Torino". "Watchmen". "Avatar". "Whatever Works". "Tetro". Pirataria a todo vapor. Culpa nenhuma para carregar. Exorcismo de exús. Futebol às segundas-feiras. Nada além disso. Caipirinha de saquê. Mesmo carro. Mesmo estilo. Mesmo mundo. Mesma paz.
As coisas passam, você vai me dizer, e isso soa como uma ofensa aos ouvidos. Tu vai dizer isso justo para quem? Não sabe que eu sou o inconformismo em pessoa? Essa história de que tu precisa erguer as mãos para os céus e agradecer pelo que tem me parece um papo de fracassado. Ah, muita gente não tem o que você tem. Isso não é minha culpa, não venha depositar em mim o teu ceticismo, o teu comodismo e a tua fraqueza. Não quero ver ninguém, nem ter ninguém, muito menos ser ninguém aos olhos dos outros. O que faço é para mim. Já fiz muito por quem hoje me diz que a vida é assim mesmo e que nem sempre tudo é como gostaríamos que fosse. Bullshit, diriam os texanos, os novaiorquinos e toda aquela raça das bandas de lá. Nunca li esses livros de auto-ajuda, nunca meus olhos correram páginas que ensinam a acreditar em si mesmo. Eu já nasci sabendo disso. Eu já cuidei de uma idosa, vou te dizer, e tu vem e diz que eu não sei nem cuidar de mim mesmo? Então não fique aqui do lado, olhando, esperando escutar de mim alguma coisa que nunca daqui sairá. Tenho lido muito e falado pouco. É bom ser assim de vez em quando, apesar de soar estranho. O silêncio soa estranho. É um bom começo de conto. Não tenho vindo muito por aqui. É bom que as pessoas sintam um pouco a nossa falta. Até dá para acreditar que a vida é um pouco disso, um grão de ausência sentida. Dá sim. E se te interessa, até sonhar com isso é bom.
Uma delas é poder assistir a um filme daquele que, na sua opinião, é um dos maiores criadores da história do cinema, o qual somente (e oficialmente) estreará por aqui em 2.010, com imagem de DVD e legendas incrivelmente simétricas e com tradução de alto nível (ainda que caseira), acompanhado de um pote repleto de Iô-Iô Crem, de uma colher, sabendo que as pessoas que você ama estão dormindo no quarto ao lado, tranqüilas, após terem passado um sábado sensacional do seu lado.
É por isso que eu digo: morra amigo do seu distribuidor de filmes alternativos.