E isso não importa, obviamente. Nada disso importa quando se trata DELE.
E de Larry David, o homem careca que ilustra a foto aí de cima. Para quem não sabe, tal senhor foi o criador, além de redator, por muitos anos, da comédia mais genial de que se tem notícia.
Tal senhor também, EXCRUSIVE (como diz um amigo meu), pôs seu dedo de Midas em "Segura a Onda", uma das comédias mais geniais dos últimos anos, tacada de mestre da HBO norte-americana.
Também é o retorno triunfal de Allen à sua tão amada Nova Iorque.
NOVA IORQUE. Assim mesmo, em português.
Se os outros podem estragar os títulos dos filmes e afastar, conseqüentemente, os menos avisados das bilheterias brasileiras, porque eu não poderia escrever aqui como bem entendesse?
E, sim, eu sei que posso estar sendo repetitivo quando falo daquele que é meu autor favorito.
Mas quer saber? Foda-se. Eu amo o cinema autoral. Aquele que escreve, dirige, escolhe a trilha sonora, atrai um elenco disposto a dar o sangue por preço de banana e, vá lá, atue.
Enfim, quem batalhe até hoje por recursos e lapida pequenas ou grandes jóias da sétima arte, como faz Woody Allen.
Porra, o cara tem uma quantidade de prêmios ainda maior que a repercussão de seus escândalos passados.
Vocês compreenderam? Woody Allen, a meu ver, não acredita ser genial o suficiente ao ponto de atrair investidores interessados em custear seu trabalho.
Então, eu páro e penso: se as pessoas ainda têm receio de investir no Woody Allen, o que será de nós num futuro próximo?
Eu não sei se já contei aqui, mas minha vida é regada a música. Eu acordo e ponho um CD. Vou dirigindo pela cidade e cantarolo nos semáforos. O meu espelhinho de barba, daqueles que fica grudado na parede do banheiro com uma ventosa, tem um rádio AM-FM à prova d'água acoplado. Então, um dia desses, um amigo do trabalho me contou sobre o Dreamule. Ele sabia que eu já havia tido uma virose virtual por conta de outros programas para baixar música da internet e me garantiu que nunca teve problemas com esse aí. Eu fui na dele e o baixei, numa dessas noites geladas de junho.
Pois bem. Viciei. Estou gravando CDs a torto e a direito. Baixei a discografia da Aimee Mann, do Bert Jansch, do Caetano Veloso. Baixei os box-sets dos Ramones e do Bob Marley. E, agora, estou terminando de donwloadear a discografia completa da Karnak e do Milton Nascimento. E isso é só o começo, beibe.
Te digo, meu laptop é pequeno para onde posso chegar.
Em dezembro de 2.006, eu estava trabalhando num emprego péssimo, ganhando mal pra caralho e sem possibilidade nenhuma de crescimento, porém sem nenhuma outra oportunidade à vista, já que havia mandado uns quarenta e-mails com um currículo anexo em cada um deles e não havia tido um retorno sequer. E estávamos perto do Natal, eu estava com o meu décimo-terceiro salário todo comprometido e tinha, me lembro bem, quarenta reais na carteira. Eu nunca gostei de pegar dinheiro com o meu pai, ele não tinha culpa daquela maré, na verdade nem eu tinha essa culpa. Mas era fato, eu tinha quarenta reais na carteira, era dia 23 e eu havia cancelado uma viagem para o Litoral por conta desse probleminha orçamentário para passar o Réveillon em algum lugar onde eu pudesse gastar o mínimo possível. Eu me lembro que estava em casa, deitado no sofá e pensando como seria o início de janeiro do outro ano quando o meu celular tocou. Era o Rodrigo, Digão para os íntimos. Eu conheci o Digão quando fui para uma festa no interior paulista e fiquei hospedado na república duns caras que conheço e que estavam trabalhando em cerâmicas daquela região. O Digão dividia um dos quartos com um dos meus amigos e, de bate-pronto, ficamos amigos. Ficávamos horas conversando na calçada, eu ouvia um CD da Marina Lima no discman e sempre deixava um ouvido sem o fone, porque eu não queria perder um minuto de conversa com aquele cara tranqüilo. Eu me sentava no meio-fio e arranhava um violão velho que estava sempre encostado num beliche e ele ficava lá, ouvindo, cantando junto, enfim. Empatia de primeira, sem esforço. Então, o Digão me ligou e disse que estava na cidade, que tinha vindo passar as festas com a sua família e que estava a fim de assistir a algum filme e depois jantar alguma coisa, talvez um sanduíche no Paulão, que é um dos meus lugares favoritos e que, um dia, eu quero levar a Carol para conhecer, já que tivemos discussões acirradas sobre o xis gaúcho e o xis paulista. Pois bem. Eu disse para o Digão que estava meio sem grana, mas ele disse que estava convidando e que eu não devia recusar, que seria uma puta duma ofensa. Então ele passou aqui em casa e a gente caiu num shopping, na antevéspera de Natal, porque queríamos assistir "O Labirinto do Fauno" e só estava passando naquela porra de lugar. Ficamos andando e jogando conversa fora, até que paramos em frente à vitrine da Livraria Nobel. E ficamos conversando sobre aqueles livros que estavam expostos e sobre alguns CDs que estavam empilhados, no formato dum pinheiro nada simétrico (até me chamou atenção um disco do Paulinho Nogueira, instrumental, sobre as primeiras canções do Chico Buarque de Holanda). E eu comentei com o Digão que, quando tivesse grana, a primeira coisa que faria seria voltar lá e comprar o "Blues", do Robert Crumb, porque eu adoro blues e adoro os cartuns do Crumb. E o Digão ficou lá, ouvindo, dizendo até que estava a fim de comprar uns quadrinhos do Frank Miller, mas que, sei lá, podia ficar para depois. E voltamos a andar pelo shopping, em direção a uma cafeteria, e eu continuei falando sobre o quanto gostava do Muddy Waters e que achava "Kozmic Blues" a melhor música da Janis Joplin quando percebi que estava falando sozinho. Então, voltei para a frente da Livraria Nobel e o Digão estava com um pacote na mão. O cara entrou lá e me comprou o livro do Crumb. Então, olhou para mim e disse algo como pô, você me conhece, sabe que eu nunca te deixaria na mão por causa de grana.
Enfim, eu resolvi escrever isso aqui porque hoje, passados três anos, as coisas mudaram muito na minha vida. Faço o que gosto, da forma que acho correta, a remuneração (hoje) é bem adequada e vamoquevamo. E resolvi escrever porque, quando terminei o livro do Robert Crumb, comecei a procurar na internet por uma porrada de artistas que faziam a cabeça do cartunista e que eu jamais tinha ouvido falar qualquer coisa, como o Robert Johnson, o Furry Lewis e o Charley Patton. E achei o Patton foda, tão visceral na tradução literal do Daniel Galera e me vi doido pela força daquelas palavras, pela habilidade do cara em transformar qualquer acontecimento, por mais banal que fosse, em uma rajada potente e arrepiante de poesia. E porque, por esses dias, vasculhando, encontrei a coleção completa das gravações do Charley Patton no Amazon e resolvi me autopresentear. E isso não teria sido possível se não fosse a sensibilidade de um daqueles caras que nunca vão permitir que o tempo escasso e os quilômetros rodoviários transformem a amizade em uma distância impossível de ser vencida.
Ah, sim. Antes que tu pergunte, o quadrinho do Frank Miller chegou na mão do Digão. Através do amigo que adora o Crumb, adora o blues e nunca vai se esquecer daquele 23 de dezembro.
"Ê, cadê você, cadê você/ Cadê você, cadê você/ Cadê você, cadê você/ Cadê você, cadê você/ Ih, e no Maraca eu nunca vi/ No Engenhão, nunca vai lá/ Os jogadores todos choram/ Não tem torcida prá apoiar..."
A Royal Opera House é fichinha perto do coral da Magnética.
Eu tenho uma. Chegue em casa, arranque todas as roupas pesadas do trabalho (e não digo pesadas como medida de peso, mas sim como medida de energia), coloque-as no cesto para serem devidamente lavadas, leve seu CD-player ao banheiro contigo, ouça Belle and Sebastian enquanto a água quente tenta nocautear sua tensão, seque-se, vista-se, deite-se na cama, abra essa obra-prima em traços e cores e vá tentando levantar-se sem que a última página tenha se encerrado. Depois me conte se conseguiu. Depois me conte se todo o resto ficou no passado, como sempre deve ser quando estamos próximos do que nos faz bem.
O comércio alternativo de filmes pode transformar o impossível em algo paupável. Durante a semana, assisti ao tão comentado e laureado (mais comentado que laureado) filme do Steven Soderbergh sobre a trajetória do médico Ernesto Guevara desde o início da Revolução Cubana à sua trágica morte num povoado boliviano. À primeira vista, pode parecer apenas uma forma de se retratar um mito histórico, mas a visão do diretor vai um pouco além disso.
Soderbergh tenta humanizar a figura mística do argentino que, inicialmente com certa ressalva, comandou a luta armada no arquipélago caribenho que marcou tanto a derrocada do governo de Fulgêncio Batista quanto a ascensão do regime ditatorial que viria a ser imposto por Fidel Castro ao povo cubano. Dividido em duas partes, "O Argentino" e "Guerrilha", curiosamente não traz à baila a chegada dos guerrilheiros à Havana. Dimensiona, porém, a comoção popular quando da tomada de Las Villas e Santa Clara pelo pelotão de Guevara, enquanto se noticia a vitória dos comandados por Castro e Camilo Cienfuegos em, respectivamente, Santiago de Cuba e Yaguajay, que antecedeu à caminhada até a capital nacional, saltando para a despedida de Guevara do governo instalado e sua partida para treinar novos miliciantes nas matas bolivianas.
Benicio del Toro encarna um Che fabuloso. Traz à tona sua latinidade num espanhol perfeito e coloca Rodrigo Santoro, que interpreta Raúl Castro, atual comandante cubano, no chinelo. Porém, o Fidel Castro de Damián Bichir é o grande trunfo de Soderbergh. Quem vê as imagens históricas da Revolução, quem ouve o áudio dos longos discursos castristas, sabe que ali estava a mais perfeita encarnação do ditador. Fidel é refinado, inteligente, um estrategista de fala mansa, um líder nato. Che e Cienfuegos, percebe-se, só comandavam com seu aval, dando a correta idéia de que havia um respeito natural à hierarquia proposta naquela célula combatente.
O problema de Che, bem retratado nas mais de quatro horas de projeção, talvez tenha sido a ausência de um comandante como Castro na Bolívia. Enquanto os cubanos eram organizados e extremamente disciplinados, os bolivianos não traziam consigo a instrução necessária para um levante de tamanha magnitude como uma revolução armada. Não que Che fosse um péssimo condutor. Che apenas não era um estrategista como Castro. Bolívia não era Sierra Maestra, não houve o apoio do Partido Comunista Boliviano e Che se viu cercado de homens despreparados em um terreno acidentado e desconhecido. Tentando angariar apoio dos poucos campesinos da região escolhida para treinamento, enfrentou os boatos impostos pela mídia governista e não logrou êxito, inclusive por não falar a lingua indígena do local. Tamanha dificuldade culminou no fracasso das operações e na captura dos seus guerrilheiros no conflito de La Higuera, culminando num desfecho que todos conhecemos.
A fidelidade às informações traduziu-se na fidelidade das cenas filmadas por Soderbergh. Como todo relato sobre um mito, deve-se escolher um foco para análise e transposição à tela. O que Soderbergh escolheu foi adequado, na minha modesta e amadora opinião: focar-se na pessoa, sem esquecer-se da história. O resultado não é um filme panfletário, mas passível de discussões acaloradas em mesas de botecos num domingo de tarde amena. Vale aguardar a estréia, caso você não tenha um distribuidor de sucessos que transforma sangue em água e tem consideração suficiente por ti a ponto de lhe conseguir coisas que até Deus duvida.