Depósito de Neuras


Interrupção.

Venho por meio deste interromper o que nem começou.

Sei que fiquei de escrever sobre minha viagem a Cuba, mas preciso desabafar com meus quatro leitores:

Sabem quando tu tem a nítida e cristalina impressão de que em suas mãos esteve, durante certo período, uma obra-prima?

Pois é. Terminei de ler "Meridiano de Sangue", do Cormac McCarthy essa semana.

Jamais irei me recuperar.

Como disseram no Twitter na ocasião de seu aniversário: parabéns, Cormac McCarthy, ninguém pisando a face da Terra escreve tão bem quanto você.



Escrito por Luís Fernando às 11h00
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Um brasileiro em Cuba - primeira parte.

Para se chegar em Havana, gasta-se normalmente cerca de seis ou sete horas de vôo, aí incluídas as idas-e-vindas de fuso horário, bem como a sua pausa no Aeroporto Internacional da Cidade do Panamá.

Minha mulher e eu viajamos pela Copa Airlines, e confesso que tive medo. Mas como eu teria medo de voar até se fosse um pássaro e tivesse asas que me foram dadas justamente para cruzar os céus, não sou parâmetro para nada. E justiça seja feita: não tivemos problema algum durante o embarque, o desembarque e o trajeto. Aviões muito seguros, lanchinho horrível (como em todas as companhias aéreas) e uma única revista a bordo. No braço das poltronas tinham botões que, depois, fui descobrir ser o dial e o volume das rádios internas da companhia aérea.

Consegui ouvir um disco inteiro do Yo-Yo Ma, mais alguns clássicos do jazz moderno instrumental, e dormi o resto do tempo graças a uma cavalar dose de Dramin, cortesia da minha mulher, que me conhece como poucos. Não enfrentamos turbulências, o que foi um negócio da China, considerando minha propensão ao terror quando não sou eu a pessoa que está dirigindo.

O Panamá, pausa obrigatória para quem voa Copa até Havana, pode ser definido como um Paraguai de luxo. Por se tratar de um país onde os impostos são livres para compras (o famoso tax-free), a conexão pode transformar uma pausa maçante num programa divertido. Minha mulher e eu comemos uma pizza em pedaço logo na saída do portão de desembarque e, como faríamos nova conexão ao voltarmos para São Paulo, optamos por passear pelo aeroporto, definir nossas prioridades de compra e deixar para adquirir no retorno.

Até porque há limites estabelecidos pelo governo cubano para que você possa transportar as mercadorias mais famosas do país, como rum, charuto, café e chocolate. Fora o limite de peso da bagagem, que é estabelecido pela companhia aérea (isso merece um capítulo a parte). Sendo assim, é muito recomendável que tu não entupa sua mala de muamba no Panamá e perca a oportunidade de trazer o que realmente importa na bagagem: os poucos produtos que Cuba pode te oferecer.  

O Aeroporto Internacional José Marti, de Havana, é bem estruturado, ao contrário do que muitas pessoas pensam. Você não desce no meio da selva ou em Sierra Maestra. A pista é conservada, os funcionários são bem-treinados, você é direcionado adequadamente e a imigração do país é atenciosa sem ser grosseira, sem te intimidar em momento algum. Apesar da minha mulher ter sido cantada pelo policial (e, com elegância, ter desviado do mesmo), é bom frisar que não enfrentamos nenhum problema desde o embarque em São Paulo até a retirada de nossas bagagens na esteira do aeroporto.

Próximo capítulo: traslado e hospedagem.



Escrito por Luís Fernando às 17h35
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Cuba, meu amor.

Voltando a escrever aqui, creio que terminam as dúvidas de meus quatro leitores sobre a idoneidade de minha palavra.

Eu disse que, ao voltar de Cuba, me sentaria diante do computador e contaria absolutamente tudo sobre minha experiência no único país notadamente socialista das Américas (Venezuela não conta, para mim é um comunismo maquiado e movido a petrodólares).

Ocorre que, passados mais de cinco meses do meu retorno, quase seis meses, ainda não me recuperei totalmente da viagem. Foram dez dias que, para mim, significaram uma vida toda. Sinceramente, ao pisar no avião que me traria de volta ao Brasil, junto de minha mulher, carregava na bagagem mais que somente garrafas de rum Havana Club ou charutos Romeo Y Julieta. Carregava um sentimento estranho, uma vontade absurda de voltar, um desejo maciço de, um dia, quem sabe morar lá por um tempo.

Estou terminando de colocar as idéias em ordem. Em breve escreverei tudo.



Escrito por Luís Fernando às 14h20
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Hasta la victoria, siempre.

"De Alto Cedro voy para Marcané /

Llego a Cueto y voy para Mayari..."

Após três longos e tenebrosos anos sem férias, vou-me embora para Cuba em dezembro. Ficarei nove dias sentindo a história tomar meu corpo.

Ficarei em bons hotéis, beberei além da conta, dançarei salsa com minha mulher e pretendo comprar um quadro bem colorido para colocar na sacada do meu apartamento (ou em qualquer outro canto que me seja permitido).

Como não encontrei nenhum blogue com indicações de restaurantes, bares e clubes noturnos em Havana e Varadero, talvez esse seja meu projeto de retorno. Se não um blogue, porque eu não tenho mais paciência para escrever continua e rotineiramente, possivelmente uma série de impressões sobre minha viagem aos meus dois ou três leitores assíduos, ou seja, aqueles que ainda se dão ao trabalho de deixar comentários aqui, pedindo que eu apareça ou escreva. Certamente, meus queridos, beberei um rum em homenagem a vocês, que nunca me abandonam. E vocês sabem bem quem são.

Vou escrever tudo, tudo, tudo sobre Cuba aqui nesse espaço empoeirado. Quem viver, verá.



Escrito por Luís Fernando às 20h48
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Da época em que eu costumava acreditar nas coisas.

"Who knows, not me/ I never lost control/ You're face to face/ With the man who sold the world..."



Escrito por Luís Fernando às 21h27
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Compreendendo gênios.

O que é que tem no jazz que te atrai tanto?

Coloco a música que gosto de ouvir porque o filme é meu [ ri ]. Existe um certo tipo de jazz que é ótima música para comédia, porque é para cima e viva. Realmente não vou além da era do swing porque é importante que a batida seja simples, e a música, melódica. Seria difícil fazer uma trilha com o Charlie Parker e o Dizzy Gillespie - numa comédia. Dá para usar a música deles num filme sério. E de vez em quando dá para encaixar um Thelonious Monk.

Além disso, não consigo usar com facilidade a música dos meus ídolos. Nunca uso Jerry Roll Morton ou George Lewis. Só usei duas músicas de Sidney Bechet. Uma vez, em Poucas e boas, e só usei porque a letra [ de "Viper Mad" ] era ótima para a festa a que o Sean [ Penn ] vai no filme; usei também um disco muito, muito atípico do Sidney Bechet, em que ele toca "Tropical Mood Meringue", que ele não executou tão bem, e sem muito sucesso, e não é considerada parte de seu trabalho sério. Nunca consegui usar Louis Armstrong numa trilha sonora. Consegui colocá-lo num filme, como fiz em Memórias, mas, assim como Lewis e Bechet, não consigo usar Armstrong inocuamente como música de fundo; me incomodaria muito, a música deles é importante demais para mim.

Agora, eu realmente adoro muita gente que uso como música de fundo. Fiz muito sucesso com Ben Webster, Coleman Hawkins, Django Reinhardt, Erroll Garner, porque a música deles é altamente melódica e tem swing. Usei bastante Benny Goodman, que não é exatamente um ídolo para mim, embora eu adore como música de fundo.

[ Eric Lax, Conversas com Woody Allen, p. 400-401, Cosac & Naify ].



Escrito por Luís Fernando às 22h07
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Da série: as melhores trilhas para se escrever um conto.



Escrito por Luís Fernando às 19h51
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Groucho Marx, "I Must Be Going".



Escrito por Luís Fernando às 21h02
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Gregório Duvivier, "Pizzaria Guanabara".

Difícil ser feliz nas festas de Santa

Tereza ou sentado nas escadarias

da Lapa por melhor que seja

sua companhia é difícil ser

sinceramente feliz na

pizzaria guanabara às

cinco da manhã em

meio a pedaços de

pizza fria e o cigano

igor de chapéu há

lugares em que

você sabe que

não vai ser

feliz mas

vai

Muito mais aqui.



Escrito por Luís Fernando às 22h32
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Náusea.

Enjoei do blogue.

Mas eu volto. Eu sempre volto.

Por enquanto, aguardem meu conto (está saindo... saindo... saindo...) e ouçam Tiê, boa surpresa da música brasileira.

Depois, venham aqui para comentar, espinafrar ou dizer oi. Tudo isso é bem-vindo e não faz mal.



Escrito por Luís Fernando às 20h29
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Em 2.010.

Divirta-se com Hélio dos Passos. E com quem bem entender. Não se esqueça de ser muito feliz. E de mandar o resto para a casa do caralh...



Escrito por Luís Fernando às 23h50
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Em 2.009.

Perdi o emprego. Depois, ganhei outro emprego. Aumento salarial. Comprei um apartamento. Depois gesso, piso, aquecedor, armários e granitos, necessariamente nessa ordem. Muitos livros lidos, nenhum conto escrito. Redescobertas e reencontros. Pai e mãe ainda mais sensacionais. Um filho que foi feito para mim, ainda que não por mim. Tricampeonato carioca. Hexacampeonato brasileiro. Amor, amor, amor, amor. Choro também, mas muito amor. Raiva também, mas muito mais amor. Perdas. Ganhos. Mais ganhos que perdas, com absoluta certeza. Desenhos animados no You Tube. Pouco MSN, pouca paciência para internet, paciência nula para conversar num laptop, muita saudade de boteco com os grandes, poucos e ótimos amigos de toda uma vida. Muitas descobertas sonoras. A delicadeza de Tiê. Charley Patton e seu blues do Delta. Os anos de Etta James na Chess Records. Os anos de Billie Holiday na Columbia. O antológico disco do Jorge Ben com o Gilberto Gil. A polenta ao funghi do Nico. O bloody-mary do Paulo Tiefenthaler em seu programa genial do Canal Brasil. Os vinte anos dos Simpsons. Muita coisa boa no DVD. "Gran Torino". "Watchmen". "Avatar". "Whatever Works". "Tetro". Pirataria a todo vapor. Culpa nenhuma para carregar. Exorcismo de exús. Futebol às segundas-feiras. Nada além disso. Caipirinha de saquê. Mesmo carro. Mesmo estilo. Mesmo mundo. Mesma paz.



Escrito por Luís Fernando às 23h12
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Seis.

Para curtir a ressaca do hexa, tem até trilha sonora.



Escrito por Luís Fernando às 21h49
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




É assim que é.

As coisas passam, você vai me dizer, e isso soa como uma ofensa aos ouvidos. Tu vai dizer isso justo para quem? Não sabe que eu sou o inconformismo em pessoa? Essa história de que tu precisa erguer as mãos para os céus e agradecer pelo que tem me parece um papo de fracassado. Ah, muita gente não tem o que você tem. Isso não é minha culpa, não venha depositar em mim o teu ceticismo, o teu comodismo e a tua fraqueza. Não quero ver ninguém, nem ter ninguém, muito menos ser ninguém aos olhos dos outros. O que faço é para mim. Já fiz muito por quem hoje me diz que a vida é assim mesmo e que nem sempre tudo é como gostaríamos que fosse. Bullshit, diriam os texanos, os novaiorquinos e toda aquela raça das bandas de lá. Nunca li esses livros de auto-ajuda, nunca meus olhos correram páginas que ensinam a acreditar em si mesmo. Eu já nasci sabendo disso. Eu já cuidei de uma idosa, vou te dizer, e tu vem e diz que eu não sei nem cuidar de mim mesmo? Então não fique aqui do lado, olhando, esperando escutar de mim alguma coisa que nunca daqui sairá. Tenho lido muito e falado pouco. É bom ser assim de vez em quando, apesar de soar estranho. O silêncio soa estranho. É um bom começo de conto. Não tenho vindo muito por aqui. É bom que as pessoas sintam um pouco a nossa falta. Até dá para acreditar que a vida é um pouco disso, um grão de ausência sentida. Dá sim. E se te interessa, até sonhar com isso é bom.



Escrito por Luís Fernando às 13h54
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




As vantagens de se ter amigos.

Uma delas é poder assistir a um filme daquele que, na sua opinião, é um dos maiores criadores da história do cinema, o qual somente (e oficialmente) estreará por aqui em 2.010, com imagem de DVD e legendas incrivelmente simétricas e com tradução de alto nível (ainda que caseira), acompanhado de um pote repleto de Iô-Iô Crem, de uma colher, sabendo que as pessoas que você ama estão dormindo no quarto ao lado, tranqüilas, após terem passado um sábado sensacional do seu lado.

É por isso que eu digo: morra amigo do seu distribuidor de filmes alternativos.



Escrito por Luís Fernando às 13h31
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
Outros sites
  UOL - O melhor conteúdo
  Mário Bortolotto
  Camilla Lopes
  Carol Bensimon
  Clareador Cerebral
  Bruna Beber
  Garfada
  Revista Malagueta
  Insanus
  Cecília Giannetti
  Joca Reiners Terron
  Carola Medina
  Angélica Freitas
  Revista Trip
  Blocos On Line
  Meus contos em Blocos
  A Garganta da Serpente
  Meus contos na Garganta
  Usina das Palavras
  Meus contos na Usina
  Pisar El Césped
  Bestiário
  Paralelos
  Psicodelia
  Rabisco
  Cove
  Rafa Prete
  Mal de Montano
  Estante Virtual
  Carmine
  Amanda
  Vanessa Riboldi
  Júlio César Corrêa
  Pips e Tisf
  Clarah Averbuck
  La Guitarra
  Menina Lunática
  As Filhas do Dono
  Déa Machado
  Be Blog Jazz
  Fernanda D'Umbra
  Cristiane Lisboa
  Bruno Galera
  Ana Paula Maia
  Monomulti
  Breviário de Decomposição
  Breviário das Horas
  Impedimento
  Jú Gross
  Jéssica Panazzollo
  Taxitramas
  Paulo Scott
  FlamengoNet
  Jorge Ferreira
  Gazeta Mundo Cão
  Editora Baleia
  Cosac e Naify
Votação
  Dê uma nota para meu blog