As coisas passam, você vai me dizer, e isso soa como uma ofensa aos ouvidos. Tu vai dizer isso justo para quem? Não sabe que eu sou o inconformismo em pessoa? Essa história de que tu precisa erguer as mãos para os céus e agradecer pelo que tem me parece um papo de fracassado. Ah, muita gente não tem o que você tem. Isso não é minha culpa, não venha depositar em mim o teu ceticismo, o teu comodismo e a tua fraqueza. Não quero ver ninguém, nem ter ninguém, muito menos ser ninguém aos olhos dos outros. O que faço é para mim. Já fiz muito por quem hoje me diz que a vida é assim mesmo e que nem sempre tudo é como gostaríamos que fosse. Bullshit, diriam os texanos, os novaiorquinos e toda aquela raça das bandas de lá. Nunca li esses livros de auto-ajuda, nunca meus olhos correram páginas que ensinam a acreditar em si mesmo. Eu já nasci sabendo disso. Eu já cuidei de uma idosa, vou te dizer, e tu vem e diz que eu não sei nem cuidar de mim mesmo? Então não fique aqui do lado, olhando, esperando escutar de mim alguma coisa que nunca daqui sairá. Tenho lido muito e falado pouco. É bom ser assim de vez em quando, apesar de soar estranho. O silêncio soa estranho. É um bom começo de conto. Não tenho vindo muito por aqui. É bom que as pessoas sintam um pouco a nossa falta. Até dá para acreditar que a vida é um pouco disso, um grão de ausência sentida. Dá sim. E se te interessa, até sonhar com isso é bom.
Uma delas é poder assistir a um filme daquele que, na sua opinião, é um dos maiores criadores da história do cinema, o qual somente (e oficialmente) estreará por aqui em 2.010, com imagem de DVD e legendas incrivelmente simétricas e com tradução de alto nível (ainda que caseira), acompanhado de um pote repleto de Iô-Iô Crem, de uma colher, sabendo que as pessoas que você ama estão dormindo no quarto ao lado, tranqüilas, após terem passado um sábado sensacional do seu lado.
É por isso que eu digo: morra amigo do seu distribuidor de filmes alternativos.
O distribuidor de filmes piratas deve ser com um fornecedor de armas clandestino. Deve se portar com discrição, falar pouco e só trazer artigo fino. Você deve confiar no cara, saber que aquele produto não vai falhar na hora agá, assim mesmo, por extenso. Imagina se tu compra um treisoitão e, em cima da pinta, o bicho refuga, pipoca e falha? Mal comparando, até porque eu sou um pacifista inveterado, mas o blogue é meu e eu escrevo o que eu quiser e faço analogia com o que bem entender, é uma merda quando tu vai até a feirinha, enfrenta aquela fila para arrumar uma vaguinha no estacionamento de dois reais, pega uma puta duma tromba d'água, adquire o que chamamos carinhosamente de PACOTÃO DE ENTRETENIMENTO e, já no aconchego do seu lar, a mercadoria é de péssima qualidade. Azeda o créme de la créme, não há humor que resista, ainda mais se for aquela comediazinha romântica que sua companheira amorosa está doida para assistir e que tu não a levou ao cinema porque o ingresso está custando os olhos da cara e você não é palhaço para gastar quase vinte pilas no combo médio do Cinemark.
Pois bem. Eu, que não sou bobo, nem nada, até porque sou flamenguista de coração, para desgosto do meu pai, e isso explicita meu elevado Q.I, detenho laços tão fortes de amizade com os meus fornecedores de películas em formato DVD que não devem se assustar os desavisados que se confrontarem com suas presenças no altar do meu casamento. Obviamente, trata-se de um exagero concreto e abusivo, mas não encontrei nada mais impactante para mesurar a relação de confiança que deve haver entre o consumidor e o negociante. É nessa maré que cheguei de mansinho naquela Cinecittá ambulante e, mediante transmissão de pensamento, lá estavam separados os lançamentos para olhares atentos dos fregueses preferenciais. E quem integra esse seleto grupo sabe como nos sentimos. Nos sentimos como habitués dos áureos tempos do Gallery com tanta consideração, com a diferença de que tu não precisa usar um smoking alugado para ser VIP.
Terminei comprando a 12ª temporada dos Simpsons, já que estou colecionando para mostrar aos meus bisnetos como se fazem desenhos animados de verdade e, de quebra, fui no novo do Quentin Tarantino. "Bastardos Inglórios". Eu sou fã do Quentin, ex-balconista de locadora, como eu fui. Mas bom escritor e multimilionário, como não sou. E, desde o começo, percebe-se que não se trata de um experimentalismo do diretor, como naquela pífia homenagem aos velhos filmes de terror. É um verdadeiro Tarantino, um espécime legítimo, como aqueles aquelas obras do Hélio Oiticica que, infelizmente, tornaram-se pó de urna. Humor refinado, roteiro elaborado, elenco afinado, boa trilha sonora e um desfecho extremamente empolgante.
Todo mundo queria ver o filme por conta do Tarantino e do Brad Pitt. Este, aliás, num momento tão brilhante quanto aquele seu cigano de "Snatch", obra-prima do ex-Madonna. Mas algumas outras coisas me surpreenderam além. Eli Roth. A participação espirituosa de Mike Myers. A beleza de Diane Krüger como uma agente dupla. Mas ninguém consegue superar Christoph Waltz em matéria de atuação: numa boa, seu Coronel Hans Landa é a personificação do anti-semita, do nazista arraigado, a fusão do cativante com o monstruoso. Assim eram os nazistas, não? Não foi Hitler descrito desta forma em todas as suas biografias?
Vale cada centavo, vale cada segundo de tempo gasto diante do televisor (no meu caso, com um pote de Io-Io Crem gelado no colo) ou na sala de cinema (sendo roubado pela lanchonete do Cinemark). A cena dos bastardos travestidos de investidores italianos na premiére nazista já vale o ingresso, o estacionamento, o disco, a fila, etc. Quentin Tarantino é o messias do cinema. Não confundir o título dessa postagem com a canção do Johnny Cash, que também era boa pra caralho, mas isso é uma outra conversa.
É chegada a hora do confronto. Do enfrentamento vivido há meses. Trinta e seis, passados, completos. O conto tem um olhar desafiador. Vem ganhando a batalha implícita desde 2.006. Queda-se inerte há três anos, intocado, mudo, delirante. Eu, por outro lado, trago a ânsia da escrita e a promessa da conclusão. Tento encará-lo, mas o som que vem do outro canto do ringue é forte, desconcertante, invasor. Toma conta dos meus ouvidos, evapora com minha concentração, traz consigo uma paz e uma quietude invioláveis. Ambos sabemos que a quietude é inimiga da criatividade. Ele me acerta o peito. Desvenda-se a causa do não prosseguimento literário. Descobre-se o problema. O problema tem nome. Seu nome é Moacir Santos. Inútil desvencilhar-me, tudo é inútil perto da canção. Não resta nada além e, se restasse, seria desnecessário e vago. Pego uma bebida, fecho o conto, desligo o micro e apago a luz. Não sou um oponente à altura. Sequer perco por pontos. O maestro, a cada embate, é o senhor do nocaute.
É engraçado como as coisas vão mudando nas nossas vidas. Quando comecei a escrever este blogue, a primeira coisa que eu fiz após a publicação da primeira postagem foi começar a visitar outros blogues. Então, a cada blogue visitado e a cada texto alheio comentado, restava em mim aquele expectativa de retribuição, de boa vizinhança, de calor humano, como se irrompesse de mim a necessidade de ser notado, lido, comentado tanto nos cafés parisienses quanto na Boca do Lixo paulistana. E eu visitava, e havia retribuição, e aquilo me obrigava a escrever mais e a visitar mais e a contar os comentários. Aí eu comecei a escrever uns continhos no computador aqui de casa e publiquei o conto numa revista literária que nem existe mais, da qual eu nem me lembro o nome, infelizmente. Mas eu queria ser lido, comentado, visitado. E pensava que escrever os contos traria mais pessoas para o blogue e que traria um foco maior para as coisas cotidianas que aqui sempre foram escritas. E eu escrevia contos à rodo, simplesmente pela evidência. Devo até ter feito um ar blasé de quando em vez, o que, definitivamente, não é muito a minha praia. Enfim, a gente sai do nosso corpo em algum momento da vida, e nem é preciso tomar o Daime para liberar nossos exús. E eu sempre esperava que, o que eu iria escrever, talvez gerasse uma conversa, um interesse ou coisa que o valha. Mas, quanto mais eu publicava os contos, mais ruins eles ficavam, então eu resolvi parar de escrever por um tempo. E, quando eu dei essa pausa, comecei a receber alguns e-mails de pessoas que realmente gostavam do que liam, que perguntavam quando sairia um outro escrito, se haviam processos criativos, modos de ação premeditados. Outros que escreviam somente para dizer que se identificaram com uma ou outra personagem, ou que a cidade descrita era igualzinha àquela onde costumava passar suas férias de infância, ou até que o homem sisudo lembrava um pouco o seu próprio pai. E eu fui percebendo, quando parei de escrever naquela primeira vez (há dois anos não publico nada, nem uma linha literária sequer em lugar algum do mundo), que estava me dedicando a um ofício que nem era tanto a minha praia ou que não era tão talentoso como um dia me julguei, mas que as pessoas que se interessam por algo que você faz só precisam se interessar por aquilo ali. Pelo produto final. O que eu faço nesse meio-tempo não importa muito, ou melhor, não importa nada. O meu blogue, que eu escrevia pensando no impacto de cada linha, tornou-se cada vez mais interessante para mim e cada vez menos interessante para os outros, até porque muita gente que me acompanhou no começo hoje já nem deve passar por perto daqui. E fui perdendo aquele sentimento de obrigação, aquele dever de visitar, porque eu não estava mais a fim de receber aquele que não chegasse aqui por vontade própria, ainda que digitando um endereço errado. E aquela esperança de me tornar o blogueiro do século pela qual, acredito, todo mundo que começa a escrever na internet é tomado de assalto desapareceu como que por magia. Eu continuo escrevendo sazonalmente por aqui, continuo procurando o CD ideal para sempre tentar um novo conto ou, quem sabe, um romancezinho chinfrim, sem o menor interesse em abrir minha alma como a um livro de biblioteca, que passa por mãos desconhecidas, que alcança lugares pelos quais eu nem gostaria de passar. Também, depois daquela interrupção, escrevi mais algumas coisas que continuaram sendo publicadas em lugares bacanas, mas que, ao contrário da produção em massa, de certa forma me trouxeram a pontinha de orgulho e me fizeram soltar aquele clichê, porra, isso está bom, nem acredito que fui eu quem fez. E vou além: tenho amigos queridos, pessoas que realmente considero e que só conheci porque o blogue perdura, levando-me por diversos caminhos. Essas ficarão, sem sombra de dúvidas. Ah, é bom aproveitar o ensejo, como dizem os ofícios da prefeitura, que não preciso conhecer para divulgar, que aqui não é confessionário, que eu só acesso o que me diz alguma coisa e que meu compromisso é com o que me faz bem. Quer saber? Não pretendo mudar, nem o meu jeito de ser, nem a idéia de quem está começando seu primeiro blogue. Mas esse respeito sempre vai predominar. Portanto, caso você acredite que seu blogue vai mudar o mundo, go straight ahead, vou adorar saber que há esperança. Mas, se um dia você se identificar com o que acabou de ler, puxe a cadeira e sente-se ao meu lado. Sempre haverá um copo a mais na mesa da vida para quem quiser beber um gole dessa história.
Quem me falou sobre a Bruna Beber pela primeira vez foi a Carol. Quando voltávamos da Bienal de Artes de São Paulo, em 2.006, ela comentou que havia se encontrado com ela na noite passada, disse que era uma garota que daria o que falar. Pois bem. Quando ela lançou seu primeiro livro, não sei se dormi no ponto, não sei se foi todo esse estrondo, mas não consegui comprá-lo para confirmar o que me havia dito Bensimon. O consegui emprestado, meses depois, com um primo distante que, coincidentemente, veio passar uma temporada por aqui com uma mochila recheada de poesia, li e gostei muito.
Agora, tem lançamento do seu segundo livro. "Balés". Grande nome. Dá aquela impressão de que as palavras dançam na linha dos nossos olhos, formando melodias sem som, deixando nossa alma em paz.
Espero que esgote como aquele livro de estréia. Mas que, dessa vez, eu consiga o meu sem depender de pessoas que nunca encontro.
Eu não pude ir ao lançamento do teu livro, como tu pode perceber. Fui convocado para ser jurado durante o mês de setembro, e não estou falando de um programa de calouros ou do concurso do alazão mais bonito do leilão de quadrúpedes. Estou falando daquele júri pesado, casca-grossa, foda mesmo, fórum e o diabo a quatro, crimes contra a vida. Enfim, então meu nome foi sorteado e, como estou em pleno inferno astral até o próximo dia vinteseis, tinham seis testemunhas ao todo, então acabei saindo do fórum por volta de nove horas da noite. Ao sair do fórum, pude perceber que seria melhor ter construido uma arca ao invés de comprar um Pólo há dois anos atrás: a chuva foi torrencial, as ruas serviam de piscina para caixas de papelão e pedaços de plástico e meu carro estava tão distante que desejei ter um caiaque ou um daqueles guarda-chuvas impermeáveis de desenho animado, onde as personagens apenas o abrem, o viram do avesso e seguem, remando, contra a correnteza. De qualquer forma, eu não chegaria ao shopping.
Mas em momento algum deixei de pensar em você e em como a nossa amizade terminou por tornar-se essa coisa (no bom sentido) tão bacana. Quando nos conhecemos, durante aquela Bienal de Artes de São Paulo, em 2.006, e tu ficou com um CD do Sufjan Stevens e meu guarda-chuva recém-comprado no camelô, não pensaria que chegaríamos até aqui, com esse contato de alma e essa ansiedade de um reencontro que, certamente, vai demorar um bocado. Quem sabe quando eu me casar (dezembro do ano que vem, talvez) meu aviãozinho sobrevoe Paris e eu chegue até o studio onde você mora com seu namorado e você finalmente conheça a mulher da minha vida e possamos todos almoçar num bistrô pequeno e andar numa daquelas montanhas-russas de parques itinerantes que os filmes europeus sempre mostram. Minha visão francesa é muito cinematográfica e, pelo que leio no teu blogue, talvez seja mesmo preciso dar uma chegadinha lá and cut that crap.
Eu estou feliz. Muito feliz. A minha avó sempre dizia que o mundo é colorido e que você escolhe se prefere viver num azul-piscina ou num cinza-chumbo. Muitas coisas se passaram desde 2.006, muitas pessoas se foram e poucas chegaram prá valer. Mas as que chegaram só vão sair, como diria Vinicius de Moraes, na grande partida que há no fim e isso vai me confortando um pouco. Tenho amigos suficientes para contar nos dedos das mãos e ainda sobram dedos. Você acabou se tornando um dedo, ainda que distante, ainda que mais por e-mail que por telefone, ainda que morando em outro país e se relacionando com outras pessoas, outras culturas, outras formas de expressão. Você se torna, aos poucos, uma escritora sensacional, vai desenvolvendo seu estilo e vai conseguindo seu reconhecimento sem atropelar suas convicções. Eu não sei se consegui chegar a isso, mas posso dizer que essa tua história é meu espelho, e olha que barato, posso dizer que estou no caminho certo, ainda que longe da literatura, ainda que num caminho inverso ao teu.
Você lançou o "Pó de Parede". Eu sabia que aquilo era só o começo. E que, no futuro, meu exemplar autografado vai passar pelo meu filho e pelo meu neto. Vão cuidar dele como a gente tem que cuidar do que a gente gosta.
Eu não pude estar lá. Mas estou sempre por aqui.
Sucesso sempre, guria. Um beijo do seu sempre amigo, louco para jogar sinuca embaixo d'água,
E caso tenha ficado ainda mais interessado, ao ponto de querer me presentear (em breve, trinta e um anos no lombo, minha gente), não se esqueça de que meu número é 43/44.
Estava tentando escrever a segunda linha de um conto. Como não consegui, fui até a cozinha, peguei um saco de Ruffles, um vidro de catchup, um copo de Coca-Cola Zero estupidamente gelada (era meia-noite, domingo para segunda) e me dirigi à sala. Na estante onde fica o televisor, o aparelho de DVD, um videoquê, um quatro-em-um e uns sessenta CDs dos meus pais é onde também fica o meu saquinho de palha recheado de filmes pirat... hum, quer dizer, alternativos. Pois bem. Estava alucinado para assistir "Watchmen", o que não pude fazer no cinema por encontrar resistência voraz e atroz do meu senhorio que, como (quase) todas as mulheres, detesta qualquer filme baseado em quadrinhos que não Batman, Homem-Aranha e afins. Liguei o aparelho de DVD, me arremessei no sofá laranja da sala (sim, tem um sofá laranja que eu adoro e que minha mãe vai fazer o favor de levar para a minha chácara, pois vai comprar outro conjunto novinho em folha e que vai demorar doze meses até ficar um pouquinho mais confortável) e comecei a assistir. Duas horas e pouco de projeção. Hoje é quinta-feira, quase sexta-feira, e me encontro tão impactado que sequer posso resenhar os créditos iniciais. Que, por si só, já tornariam aqueles cinco reais pagos ao meu camelô de confiança o melhor investimento dos últimos dias.
Para quem não sabe, a Carol Bensimon é uma escritora talentosíssima, que mora na França e que estará por aqui no dia 08 de setembro para lançar seu novo livro.
Para quem não sabe também, a guria escreveu "Pó de Parede", considerado por muita gente importante um dos melhores lançamentos literários do ano passado.
E para quem, como eu, não perde as boas oportunidades que a vida espalha pelos seus caminhos, aproveitem a chance e garantam seu exemplar autografado.